sexta-feira, 1 de maio de 2015

A nuvem que chovia histórias

N
o cume de uma montanha, a mais alta do mundo, vivia um homem tão velho quanto a própria humanidade e tão só quanto a própria solidão. Infeliz? Não, ele não se considerava assim, pelo contrário: sentia-se o homem mais feliz de todos, longe da maldade que dominava os homens, vivendo de sua horta e cultivando seu imenso jardim, onde possuía um exemplar de cada flor existente, trazida pelos seus melhores amigos, os pássaros, que também lhe informavam como ia o mundo além da montanha. Como considerá-lo um homem só, se contando com as plantas e com os animais ele possuía mais amigos que qualquer homem na face da Terra?

Este homem, tão logo acordava pela manhã, ocupava-se em cuidar de seu jardim, para que os pássaros viessem se alimentar do pólen de suas plantas. Enquanto o regava, tratava das plantas, revolvia a terra retirando ervas daninhas e contava histórias. Elas falavam de amor, de bondade, esperança e principalmente de Deus. Ah, como eram belas as histórias que ele contava sobre o povo e Deus e daqueles que Ele enviou para ensinar aos homens sobre o amor... Certamente ouvira as mesmas quando criança – ainda que não recordasse da própria infância! Ao anoitecer, com o crepúsculo resplandecendo no horizonte, chorava pelos homens, e antes de dormir, pedia a Deus que tivesse piedade deles.

A recompensa de tanta bondade e perseverança foi o surgimento de fadas em seu jardim. Como o desejo daquele homem era que houvesse paz no mundo, através delas este desejo era realizado. Os minúsculos serem oníricos ajudavam os homens de bem em suas realizações; sua intenção era mostrar à todos que as boas ações eram merecidamente recompensadas, pois permitiam a realização dos desejos mais íntimos de cada um.

Aconteceu que, numa manhã de inverno, época em que as plantas recolhem seus botões, uma roseira desobediente desabrochou, fazendo surgir uma linda rosa vermelha, e dentro dela, uma pequena fadinha. As outras fadas ficaram assombradas, pois nascimentos só são esperados na primavera, e não sabiam o que fazer com a pequenina. Frágil e ainda indefesa, ela não poderia acompanhá-las em suas missões pois viria a perecer; o mesmo aconteceria se permanecesse ali naquele frio. O que fariam então?

Por sorte o rubro da rosa em meio à neve chamou a atenção daquele velho homem, que foi verificar do que se tratava e ficou maravilhado com a rosa temporã. Achou-a mais que bela: um verdadeiro milagre dos céus de desafio e resistência, e resolveu levá-la para casa. Lá a colocou em um jarro de água e começou a cercá-la de cuidados. As outras fadas logo se alegraram, pois agora tinham a certeza de que sua irmãzinha ficaria bem.

Todos os invernos eram de solidão e muito trabalho para aquele homem: os pássaros, seus amigos, partiam em busca do verão, e as plantas que não resistiam ao frio exigiam um pouco mais de sua atenção para não perecerem. Passava todo o inverno rememorando histórias, colocando alguns pontos, reinventando-as ou simplesmente criando novas, para contar aos seus amigos quando estes voltassem. Mas naquele inverno ele não estava só, pois tinha sua rosa. E foi para ela que ele dedicou grande parte de sua atenção, contando-lhe histórias. Não sabia, porém, que dentro da rosa havia uma fada e esta se desenvolvia cada dia mais radiante pelas histórias que ele contava. 

E enfim chegou a primavera, e com ela novas flores no jardim, e principalmente mais fadas. O velho homem voltou alegremente ao seu ofício de cuidar de seus amigos e contar-lhe as histórias, como se a aventura invernal tivesse sido apenas mais uma delas. Logo, nenhum dos outros seres que habitavam aquele lugar estranhou quando o velho, um pouco pesaroso, levou a rosa, agora já com galhos, para seu jardim. Não podia deixá-la em casa pois não podia amá-la mais que às outras, então tratou de esquecê-la. Mas a fadinha que vivia dentro daquela rosa não o esqueceu, e esforçou-se mais que as outras para realizar o sonho dele.

Ah, quisera que os outros humanos fossem como aquele velho homem, que olhassem uns para os outros como ele olha para as flores em seu jardim: cada uma tem a sua beleza, mas são tratadas igualmente, não havendo mais belas, nem mais feias. O mesmo olhar que lança para as flores lança para as ervas: para aqueles olhos todas são iguais. Pudera também os seres humanos amassem tanto uns aos outros como ele os amava. Chorava à noite, pedindo à Deus que perdoasse aqueles que nada fazem para lutar por um mundo melhor. Às vezes pensava em voltar para o mundo além da montanha, em como gostaria de passar sua mensagem para eles, mas temia ser sufocado pela arrogância do povo; sentia que seria impossível. Só lhes restava rezar.

Foi pensando neste desejo que a fadinha teve uma ideia: fez um feitiço de maneira que cada história que o velho contava tornava-se vapor e ia se juntando lá no alto do céu, formando uma nuvem. Quando estava bem carregada, a nuvem se afastava e ia para as cidades. As pessoas logo se preparavam para um temporal, mas quando davam conta de si, sentiam sua imaginação fervilhar de histórias bonitas que logo eram contadas para outras pessoas, que contavam para outras, e contavam para outras... até que todos tinham conhecimento da história. E assim muitos mudavam o modo de ver o mundo – mesmo que outros não se importassem. E assim a nuvem seguia carregando e descarregando sempre...
Até que um dia, o velho partiu finalmente; já era chegada a sua hora. Deveria ser motivo de tristeza para os seres que ali habitavam mas foi de muita alegria pois todos sabiam que ele estava no céu, aos pés do Senhor. Somente a fadinha ficou triste: o que seria da sua nuvem de histórias? Era a única coisa que imortalizava aquele senhor que vivera tanto quanto qualquer mortal e permitiria que seu trabalho e suas orações tocassem os homens. Não haveriam mais histórias... Foi então que as outras fadas, percebendo seu pesar e conhecendo seus motivos tiveram uma ideia: transformariam toda boa história que saísse da boca dos humanos em nuvem para desabar em outros corações.

E assim aconteceu. Por muitos anos a nuvem carregava e descarregava milhares de histórias no coração dos homens, e mudavam suas atitudes, seu jeito de pensar. No entanto, é uma pena que a maldade dominava muitas mentes, impedindo-os de viver as maravilhas da nuvem que chovia histórias. Ela acabou tornando-se uma névoa, uma bruma, e são poucos os que a sentem e absorvem seu encanto, como eu.

Ah, como seria bom se todos pudessem ver, sentir, se envolver e trazer de volta a nuvem que chove histórias! Uma pena que o sonho do velho homem ainda esteja bem longe de se tornar realidade...! 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Meus 'Eu's

Segue uma linha filosófica de que tudo que temos aqui foi projetado por nós em outro plano. Todas as nossas conquistas e nossas derrotas são frutos da projeção dos nossos pensamentos. Outra linha diz que todas as possibilidades existem paralelamente e que o que fazemos, é apenas visualizar aquela que mais nos agrada. 
Quantos planos paralelos podem existir em um só dia?



Meu eu atravessou a rua depressa para não perder o metrô.
Meu outro eu despediu-se calmamente depois de uma gargalhada gostosa e muitas promessas de encontros em breve; ligou o ar do carro e deixou as janelas abertas para poder refrescar.

Meu eu sentou-se no banco risonha, meditando sobre tudo que aconteceu; o encontro fortuito, a conversa alegre, o contato inesperado... Enfim, reviveu naqueles minutos de viagem, entre uma estação e outra, o dia que se passou.
Meu outro eu ajeitou o próprio cinto de segurança. Olhou pelo retrovisor a criança que voltara a dormir depois de devidamente acomodada em sua cadeira. Como um olhar nunca basta, passou a mão em suas perninhas para sentir aquele calor que jamais era blasfemado. Engatou a marcha. Partiu para casa.

Meu eu estava atento às pessoas que saíam com ele junto ao metrô enquanto mirava o ponto de ônibus para mais uma baldeação; meu outro eu olhava atento os motoristas de final de semana.

No ônibus, a ligação preocupada da mãe, já na subida da ponte, vem com misto de bronca e preocupação: “Vai demorar muito?” “Depende do transito: estou na ponte. Acho que não. Como o pai está?”, “Ah, sabe como é: já está dormindo”. E daí palavras aceleradas, “‘tchau’s” confundidos com “‘te amo’s”, pois na ponte o sinal não funciona

No carro é o marido quem liga, neste caso sem a bronca, apenas a preocupação: “Vai demorar muito?” “Depende do transito: estou na ponte. Acho que não”,“Como ela está?”, “Ah, sabe como é: já está dormindo!”. Daí mais algumas declarações, “‘te amo’s” que não se confundem com “‘tchau’s”, promessa de companhia até em casa, mas na ponte o sinal ainda não funciona.

Finalmente em casa, a mãe já está dormindo; o marido, acordado. Ele retira a criança do carro e a coloca na cama; em outro plano, a eterna criança beija a fronte dos pais, tentando não acordá-los. Mas a mãe sempre está acordada. “Como foi lá?”, mãe e marido perguntam. “ Foi tudo bem, com a graça de Deus”, meus “eus” respondem.

A ducha morna; a banheira aquecida; ambos relaxam.
Logo vem a hora de dormir aninhado;
Logo vem a hora de sonhar acordado.

E assim o dia se encerra, nestes dois planos distintos. Intrínsecos? Paralelos? Algo que passou ou algo que virá? Algo que existe?

Quem sou eu? Qual é meu verdadeiro eu?

‘Eu’ Estou exatamente onde devo estar...!


(Imagem: os Pilares da Criação - NASA. Obs: Esta estrutura foi destruída à aproximadamente 6.000 anos. Mas daqui ainda conseguiremos observá-la por pelo menos mais mil anos...) 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Bolinhas de Gude Azuis


Às vezes fazemos coisas estúpidas em nossas vidas. Grandes ou pequenas, essas “coisas estúpidas” nos acompanham para sempre.

Era verão de 1982. Aquela estrutura estranha pairava na praia do Arpoador onde eu e meus amigos costumávamos mergulhar na infância. Mas enquanto alguns vibravam ao som de “areias escaldantes” eu, um ex-“menino do Rio” suava em um terno entregando despachos para cima e para baixo, nas quentes ruas cariocas, da zona norte à zona sul. Eu era ambicioso, e aos vinte e poucos anos já tinha um apartamento micro em Copacabana, bem longe da praia é verdade, mas era em Copacabana. Apesar da adolescência festeira, a ditadura fez-me  ingressar cedo no mercado de trabalho, e ao contrário da maioria das mentes jovens daquela época, que gritavam por liberdade e ordem, eu só queria uma melhor condição de vida para poder aproveitar a vida sem passar por necessidades no dia seguinte. 

Assim, trabalhava com afinco. Até o dia em que ela cruzou o meu caminho e mudou meu modo de pensar.

Encerrava meu último expediente antes das merecidas férias, após quase 7 anos trabalhando e estudando sem  parar. Estava cansado, mas ansioso; não planejara nada em especial além de praia, chope, um show aqui outro ali, essas coisas. Caminhava assobiando para casa, retardando cada passo e aproveitando o descompromisso, sentindo a liberdade, observando as crianças brincando nas ruas próximas ao meu prédio – naquela época era comum ver crianças divertindo-se na rua durante o verão. Havia uma menininha de vestido xadrez e um laço frouxo pendurado no cabelo que tentava em vão acompanhar a correria das outras crianças. Cheguei em casa, tomei um banho demorado e abri uma cerveja – a única da geladeira - e me joguei no sofá. Mas a noite estava bonita e resolvi caminhar na praia. Qual não foi minha surpresa quando, em frente à portaria, sentada nos degraus da escada, estava a mesma menininha de vestido vermelho que eu vira mais cedo?  Aparentava mais ou menos dois anos e estava suja de tanto brincar. Perguntei ao porteiro quem eram seus pais  e ele disse que não havia reparado que havia uma criança ali. Fui até ela e perguntei-lhe onde estava sua mãe mas não me respondeu. Tinha um olhar parado, atento à rua, como à espera de alguém. Não parecia assustada nem perdida: tinha a segurança e a certeza de que alguém logo logo viria buscá-la.

Entenda: eu poderia ter partido. Poderia ter feito minha caminhada, tomado mais algumas cervejas na praia, enfim, seguido o que decidira fazer. Mas aí esta história não aconteceria. O fato é que  fiquei ali sentado ao lado daquela menina, cuja imobilidade e cachinhos castanhos a balançar na brisa faziam-na parecer uma boneca de porcelana. Era intrigante estar sentada quieta por tanto tempo, sem demonstrar um mínimo de desassossego. O porteiro se aproximou de nós, trocou comigo algumas palavras, disse que nunca a tinha visto, que poderia ser de alguma visita dos prédios vizinhos. “Mas as crianças há muito deixaram a rua e ninguém viera reclamar a menina!”, falei. Ele deu de ombros e voltou para seu lugar. As pessoas passavam, entravam no prédio, sorriam, acenavam, e ela toda poucos gestos: um inclinar de cabeça, um meio aceno com a mão, um sorriso tímido para o próprio colo... e tornava a mirar a rua. Uma vizinha nova chegou a me perguntar se era minha: “Não, estamos esperando a mãe dela!!” respondi assustado. Filhos não faziam parte dos meus planos. Mas as horas passavam e ninguém aparecia. A menina suspirava e esperava. Já havia lhe levado água, lhe dado biscoitos, mas ela não falava e  eu não sabia mais o que fazer. Percebi que o porteiro estava impaciente querendo fechar o prédio, mas só quando vi sua cabecinha tombar para frente, de sono, é que cedi à pressão: tomei-a no colo e a levei pra casa.

Um homem acolher uma criança de dois anos em seu apartamento não era visto com tanta maldade naquela época graças à Deus, por isto nada de ruim passou pela minha cabeça; eu só queria protegê-la. O porteiro falou que ia dar problemas, mas ele mesmo foi testemunha que a criança estava sozinha há muito tempo sem que ninguém aparecesse. Disse que avisaria caso alguém chamasse reclamando pela criança e isso me tranquilizou, deu-me a certeza de que fazia a coisa certa. Naquela noite eu a acomodei em minha cama e fui dormir no sofá, um sono sobressaltado, à espera de que alguém batesse na porta. Mas ninguém bateu.

No dia seguinte fui até a delegacia dar parte de criança encontrada. Os procedimentos eram menos eficientes que agora – a nossa boa e velha burocracia. Esperamos por algumas horas até sermos encaminhados ao conselho tutelar. A manhã não havia sido boa, pois ela acordou assustada e eu que não tinha nada em casa para uma criança comer acabei socorrido pelos vizinhos. Ao chegarmos no conselho ela estava inquieta em meu colo, suspirava e se agitava a qualquer manifestação de deixá-la sentada longe de mim. Tive que preencher a papelada com ela agarrada em meu pescoço; segundo as normas, seria encaminhada para um lar adotivo. No momento em que a levaram ela gritou muito, mas eu sabia que seria conduzida para onde cuidariam bem dela. Eu saía do local certo de que havia cumprido com meu dever de cidadão, quando me chamaram de volta.  “Desculpe, senhor, sabemos que não tem o perfil adequado para ficar com uma criança mas todos os nossos lares estão cheios por causa das crianças perdidas no Reveillon...” foi dizendo a assistente. Eu pressupus aonde ela queria chegar, e quando me dei conta, depois de um “sim” e mais um monte de papéis, voltava com a menina para casa.

A esta altura os mais românticos devem estar me parabenizando, dizendo “nossa, que gesto altruísta ele teve!” mas a verdade é que até hoje não sei o que me levou a aceitar aquela oferta. Eram minhas férias e eu teria uma criança desconhecida em casa! Eu, que vivia para o trabalho, que não conseguia manter uma namorada sem analisar as despesas que isto traria para o meu bolso, tinha em meu tapete um bebê que só corria e sabia fazer coco (era 1982, fraldas descartáveis não eram tão acessíveis!). Eu não tinha paciência com crianças, na verdade nunca prestara muita atenção nelas além do necessário. E no entanto, ela estava ali.

 Como seria minha hóspede, comprei-lhe brinquedos e roupas. Aos poucos ela foi se soltando e começou a falar  - falar não, porque eu não entendia nada!Tentei lhe ensinar alguma coisa mas ela não aprendia. Os vizinhos souberam da história e se revezaram entre ajudar com sugestões úteis e oferecimentos prestativos e informações inúteis com comentários pejorativos. Mas à noite éramos só eu e ela em um apartamento micro de uma cidade escaldante. Semanalmente um assistente social ia nos visitar, tomava notas, perguntava se havia problemas em ela ficar mais um pouco e ia embora. Para ajudar eu coloquei um  um anuncio no jornal dando seus dados e meu endereço, mas depois que um casal lunático bateu em minha porta, achei melhor deixar a busca pelos responsáveis por conta do Conselho Tutelar!

Um mês se passou e eu resolvi contratar uma babá. Não recebia nenhuma notícia positiva e como tinha que voltar a trabalhar não podia levá-la comigo. Minha rotina tornara-se acordar, mamadeira, trabalho, casa. No retorno ao lar  a babá ia embora deixando todos os brinquedos espalhados. Um dia me deu uma bronca por não saber o nome da garota e só a chamava de Menina: como ela respondia, passei a chamar também. Mas acordar as cinco para mamadeiras, chegar tarde no serviço, chegar à tempo em em casa para dar janta, ficar acordado até tarde da noite repondo serviços atrasados estava me deixando com olheiras até os pés. Ela estava me deixando louco, e por vezes achava que a . odiava,  mais que tudo no mundo. Porém não queria tirar ela daqui.

Finalmente, seis meses após ter feito o boletim sobre ela, recebi uma intimação do Conselho Tutelar, pois os seus responsáveis haviam sido encontrados. Era um casal jovem, de olhos claros também, vestidos como se tivessem saídos do Festival de Woodstock. Falavam inglês, língua que não dominava na época mas por sorte havia uma interprete que me explicou que o casal perdera a menina na rodoviária. Então viram o anuncio antigo que eu mandara publicar no jornal, mas a agência solicitou que procurassem no conselho. Eles tinham os papéis certos, os documentos certos. Ela se jogou nos braços deles como quem revê velhos amigos, e como velhos amigos,  levaram na embora.
Naquele domingo levantei às cinco para preparar a mamadeira. quando percebi que não havia o que se preparar, ela havia partido. O apartamento finalmente estava silencioso. Tentei voltar à dormir  mas não consegui e me perguntava aflito se até não estando lá ela me atormentava. Lembrei-me de quando chegava em casa depois de um dia cansativo e aquelas bolinhas de gude azuis me olhavam pedindo um pouco da minha atenção e eu as ignorava. Olhei as horas, dava tempo: me arrumei e corri para o aeroporto. Maldito taxi, maldito trânsito, malditas horas. Quando cheguei no aeroporto já era tarde: o avião estava partindo, ela estava indo e eu não podia fazer nada.

Quando comecei este texto falando de coisas estúpidas na certa deverão estar imaginando que a coisa estúpida que eu fiz foi, sem experiência alguma, ficar responsável por aquela criança. Mas não; a estupidez pela qual me condeno é de não ter tomado o contato daquelas pessoas que levaram minha criança embora. Até hoje me pergunto se ela sente frio, se está contente, se se lembrou de falar “ombush” quando viu um, se sentiu a minha falta. Hoje aquele bebê que despertou em mim o desejo de ter uma família deve ter sua própria família, senão seus próprios netos, considerando a juventude de hoje em dia.

Naqueles dias odiei-me por nunca ter lhe falado ou apenas demonstrado o quanto eu apreciava a sua presença.. Se eu pudesse revê-la, se eu pudesse voltar no tempo... ah, tantos “sês”... De todos eles a única certeza é a de não revê-la nunca mais!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Aurora

Philip Pullman certa vez disse ao publicar um de seus contos que um conto ás vezes pode ser simplesmente um conto, uma história isolada, ou fazer parte de um romance que ainda não foi escrito. Como pequenas histórias de vidas paralelas que se cruzam, pequenos contos podem ser entrelaçados e se tornarem uma grande história.

Se é o caso do pequeno conto a seguir, só o tempo responderá...

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O tempo parou. No espaço nada se movia. Todos permaneciam em silencio absoluto; tudo se encontrava em absoluta espera. Até que enfim ela chegou. Tranquila, serena, encantou a todos com sua pureza infantil. Sim, ela era linda, e era para todos a joia mais rara do universo.

Terminada a exposição, bocejou. Estava cansada. Era tanta novidade em torno de si que ela mal conseguiu acompanhar, mas queria ver a todos. Sua mãe, a Noite, suavemente a carregou até seu dormitório e a pôs em seu cesto de dormir. Enquanto sua loura cabecinha era acariciada, suas pálpebras iam suavemente escondendo as pérolas azuis que eram seus olhos. E embalada por uma canção de ninar, dormiu, sob os olhares atenciosos do pai e da mãe.

Aquela foi a única vez em todos os tempos que não houve dia nem noite, apenas apenas a mistura de uma escuridão que não clareava e claridade que não escurecia.

Assim foi o dia que a belíssima Aurora nasceu.  

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Violinista



      Há um homem que eu vejo passar frequentemente. Na verdade eu passo; ele está parado. É um violinista.
        Quando o ouvi tocar pela primeira vez era Natal, e a melodia me encantara. Eu não tinha trocados, não pude lhe agradecer a música concedida. Mas a melodia ficou em mim. Depois, vez por outra, ele estava tocando em algum lugar das ruas por onde eu passava. E se de início havia muitas pessoas em volta admirando-o, depois tornou-se figurinha fácil, outros concorrentes surgiram e as pessoas foram perdendo o interesse.
         Mas eu não.
        Eu nunca parava, não conseguia, mas a música sempre chamava a minha atenção, me acompanhando enquanto seguia meu caminho. Por alguma razão estranha passei a olhar bem dentro dos seus olhos quando nossos caminhos se cruzavam; ele parado, eu seguindo, buscando em  sua face o rosto de um velho amigo. Tornou-se tão conhecido para mim que quando o encontrava sem os seus instrumentos, minha memória enviava a mensagem de que era alguém de quem eu gostava. “Quem é ele, de onde eu o conheço?” eu me perguntava. “Ah, já sei, é o violinista”.
      Fantasiei-lhe uma história digna dos heróis românticos do século XIX, os músicos boêmios, que tentavam a sorte de lugar em lugar, despedaçando-se em amores vãos ou em busca do sentido na vida. Eu o vejo em silencio, embriagado de alegria por uma nova composição, sozinho em um quarto mal arrumado, em uma pensão em decadência. Pode parecer estranho, mas é um pensamento que me dá paz, me leva a um estado de eterno Natal, onde a música e a poesia são os ingredientes de um viver feliz.
        Então eu viro para o lado, caio da minha cama e acordo; afinal ele é somente um violinista de rua! Alguém que resolveu ganhar algumas moedas em troca de demonstrar o seu trabalho. Nada sei sobre ele além disso.

        Ainda assim, quando o som da sua música vier me chamar e nossos caminhos se cruzarem, meus olhos vão sempre buscar os seus, minha boca vai abrir-se em um sorriso tímido, e eu seguirei adiante. Até o dia em que, talvez, pare, e numa pausa entre suas canções, tome coragem de finalmente lhe falar: “Como vai, meu amigo?”




Créditos da imagem: http://wmky.org/programs/sunday-night-jazz-showcase

Conto do Amor Perdido que nunca existiu



Casei-me com um vestido velho, de sapatos encardidos, num canto de um jardim qualquer. Ninguém viu o meu sorriso de felicidade nem as lágrimas de gratidão que rolaram na minha face quando ele me disse “sim”. Uma árvore fora o nosso padre-juiz-ministro-pastor. As folhas secas que cobriam o chão e bailavam ao sabor da brisa eram os nossos convidados. Os raios de Sol formavam o meu véu e foi o vento a sussurrar quem compôs o nosso coro, a nossa canção.

Casei-me numa tarde de primavera com um ser lindo que ninguém jamais conheceu – ele existiu somente nos meus sonhos. Quisera eu que as amigas o vissem e o invejassem, mas ele nunca aparecia quando elas estavam por perto.

Quando finalmente cresci e percebi que meu casamento fora uma ilusão, eu não fiquei triste nem zangada. Eu não me senti infeliz. Na verdade, o que eu sentia era simplesmente nada. Porque há muito tempo sofria por um amor que não vinha me buscar e quando me dei conta, já o havia matado dentro de mim.


Mas, ah... que saudade daquele lindo dia de primavera, que nunca existiu...! 




sábado, 26 de julho de 2014

Resenha #1: Uma bondade complicada

Autor: Miriam Toews



Não leia esta história se você estiver deprimido ou triste, angustiado ou algo do gênero. Você cortará os pulsos. Por outro lado, se, e somente se, você já estiver no fundo do poço, perceberá que a única saída é subir, escalar as paredes de volta ou se deixar boiar enquanto o poço enche novamente – ok, esqueça esta alternativa pois pode demorar muito e tudo que sobrará até a água atingir a abertura do poço serão seus ossos! O importante é que ao fazer esta leitura e condenar – como eu! - a nossa anti-heroína, você estará automaticamente se livrando das prisões mentais que criamos ao nosso redor.

O livro narra a história de Nomi Nickel, uma jovem de 16 anos que vive em uma cidade canadense dominada por fundamentalistas cristãos. Na visão de Nomi, aquela cidade é o típico lugar onde as pessoas escondem suas frustrações embaixo do tapete e acreditam estar fazendo alguma coisa boa. Procuram, apontam e condenam os erros dos outros na tentativa desesperada de que ninguém encontre os seus. O comportamento radical abre precedente para os dois extremos: o do bom e do mal comportamento. Os jovens como Nomi vivem a fachada de uma vida “exemplar” mas  se esbaldam com drogas e festas de fundo de quintal. Cumprem seus períodos escolares mas não há perspectiva de futuro promissor – ou, no caso o desanimadora perspectiva de nascer crescer casar procriar e morrer. Viver é consequência, uma consequência ruim até, pois pelos preceitos daquela religião, a felicidade não deveria ser incentivada –ao menos foi o que eu entendi.  

À esta altura você se pergunta: e porque ela não vai embora deste lugar? Porque fizeram isto antes dela. Sua mãe e sua irmã mais velha foram embora, deixando ela e o pai sozinhos a enfrentar a “piedade” dos cidadãos locais. Não há muros, não há amarras, mas ela se prende ao pai para não ir embora, com medo de ser egoísta como a mãe e a irmã. Há um mundo de poucas palavras entre eles, e um medo implícito em ambos de que Nomi faça como as outras. Aliás, desde o início o leitor já sabe que mãe e irmã abandonam a família – inclusive está na sinopse do livro – e tem uma breve noção do porquê. Mas á medida que a história vai avançando, vamos nos aprofundando  nos motivos de cada um, mesmo que somente sob a ótica de Nomi, e compreendendo as amarras que a prendem.  Pense em crescer achando que uma coisa é errada e de repente dentro de sua própria casa certo e errado se confrontam, e o errado vence. Como fica a sua mente?

Há uma cena particularmente interessante em que, após ser despertada mais uma vez pelos gritos da filha que chorava pela partida da irmã, a mãe de Nomi a pega pela mão e a leva na casa do pastor – que também é seu irmão. “Peça perdão à ela”, ela diz “Peça perdão à ela e diga que sente muito”. O homem está exasperado por ter acordado de madrugada e a Nomi, ainda uma criança, não entende muito bem o que a mãe quer dizer com tudo aquilo. Mas ela chorava todas as noites, não só porque a irmã foi embora, mas principalmente porque em sua cabecinha manipulada a irmã estaria à caminho ou já no inferno e ela não queria este destino para a amada irmã – ninguém quer! E a mãe sabia disso, e mais, sabia que sua filha mais nova estava sofrendo por uma coisa que ninguém tinha de fato certeza, sofrendo porque estava sendo criada sob o regime de uma fé cega que não poderia ser questionada, sem que houvesse condenação. E o pior, ela mesma, a mãe, começava a se questionar. O pedido de perdão do pastor era um jeito de dizer para a filha “Calma criança, não é tão radical quanto parece”.

E seis meses depois da partida filha, a mãe de Nomi também vai embora, e só então esta passa a questionar um pouco mais as afirmativas ao seu redor, “a bondade complicada” que dá nome á versão em português deste livro.


O livro é todo em primeira pessoa e hora se confunde como um diário de pensamentos, hora como um evento cotidiano. Nomi é uma adolescente e sua escrita é confusa e isso é chato inicialmente na história mas se revela uma tacada perfeita. Em uma frase a autora exprime toda uma ação deixando á nossa imaginação os detalhes. Por exemplo, ao invés de descrever uma cena em que põe fogo em um carro, como e porque aquele ato foi feito, ela simplesmente escreve “lavei as mãos mas ainda cheiravam á gasolina que joguei no carro em frente ao motel antes de queima-lo” ou simplesmente “podia sentir daqui o cheiro da fumaça do carro que incendiei antes de voltar para casa”. E corta para outra cena. 

Relembrando, não leia este livro se estiver se sentindo para baixo; é um livro de uma narrativa infeliz.Mas com paciência e persistência, com o auxílio da psicologia reversa pode-se tirar dele lições e buscar soluções até para os nosso problemas. Já dizia um conto em que um jovem procurava um sábio para auxiliá-lo a resolver os seus problemas dizendo que a vida não seguia adiante por causa deles. O sábio de agarra a uma pilastra dizendo que não conseguia fazer nada porque aquela pilastra não deixava. O jovem simplesmente diz "solte a pilastra". "Taí a sua resposta", diz o velho sábio.

Ás vezes não são as coisas que nos prendem: somos nós que nos aprisionamos à elas.