terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Violinista



      Há um homem que eu vejo passar frequentemente. Na verdade eu passo; ele está parado. É um violinista.
        Quando o ouvi tocar pela primeira vez era Natal, e a melodia me encantara. Eu não tinha trocados, não pude lhe agradecer a música concedida. Mas a melodia ficou em mim. Depois, vez por outra, ele estava tocando em algum lugar das ruas por onde eu passava. E se de início havia muitas pessoas em volta admirando-o, depois tornou-se figurinha fácil, outros concorrentes surgiram e as pessoas foram perdendo o interesse.
         Mas eu não.
        Eu nunca parava, não conseguia, mas a música sempre chamava a minha atenção, me acompanhando enquanto seguia meu caminho. Por alguma razão estranha passei a olhar bem dentro dos seus olhos quando nossos caminhos se cruzavam; ele parado, eu seguindo, buscando em  sua face o rosto de um velho amigo. Tornou-se tão conhecido para mim que quando o encontrava sem os seus instrumentos, minha memória enviava a mensagem de que era alguém de quem eu gostava. “Quem é ele, de onde eu o conheço?” eu me perguntava. “Ah, já sei, é o violinista”.
      Fantasiei-lhe uma história digna dos heróis românticos do século XIX, os músicos boêmios, que tentavam a sorte de lugar em lugar, despedaçando-se em amores vãos ou em busca do sentido na vida. Eu o vejo em silencio, embriagado de alegria por uma nova composição, sozinho em um quarto mal arrumado, em uma pensão em decadência. Pode parecer estranho, mas é um pensamento que me dá paz, me leva a um estado de eterno Natal, onde a música e a poesia são os ingredientes de um viver feliz.
        Então eu viro para o lado, caio da minha cama e acordo; afinal ele é somente um violinista de rua! Alguém que resolveu ganhar algumas moedas em troca de demonstrar o seu trabalho. Nada sei sobre ele além disso.

        Ainda assim, quando o som da sua música vier me chamar e nossos caminhos se cruzarem, meus olhos vão sempre buscar os seus, minha boca vai abrir-se em um sorriso tímido, e eu seguirei adiante. Até o dia em que, talvez, pare, e numa pausa entre suas canções, tome coragem de finalmente lhe falar: “Como vai, meu amigo?”




Créditos da imagem: http://wmky.org/programs/sunday-night-jazz-showcase

Conto do Amor Perdido que nunca existiu



Casei-me com um vestido velho, de sapatos encardidos, num canto de um jardim qualquer. Ninguém viu o meu sorriso de felicidade nem as lágrimas de gratidão que rolaram na minha face quando ele me disse “sim”. Uma árvore fora o nosso padre-juiz-ministro-pastor. As folhas secas que cobriam o chão e bailavam ao sabor da brisa eram os nossos convidados. Os raios de Sol formavam o meu véu e foi o vento a sussurrar quem compôs o nosso coro, a nossa canção.

Casei-me numa tarde de primavera com um ser lindo que ninguém jamais conheceu – ele existiu somente nos meus sonhos. Quisera eu que as amigas o vissem e o invejassem, mas ele nunca aparecia quando elas estavam por perto.

Quando finalmente cresci e percebi que meu casamento fora uma ilusão, eu não fiquei triste nem zangada. Eu não me senti infeliz. Na verdade, o que eu sentia era simplesmente nada. Porque há muito tempo sofria por um amor que não vinha me buscar e quando me dei conta, já o havia matado dentro de mim.


Mas, ah... que saudade daquele lindo dia de primavera, que nunca existiu...!