domingo, 10 de maio de 2015

Resenha # 2 – O Refúgio Do Príncipe.

Autor: Eva Ibbotson


Às vezes vivemos algo tão intensamente que carregamos aquilo para sempre. Pode ser um relacionamento, uma amizade, pode ser um filme que assistimos, um livro que lemos... ou simplesmente um lugar. Um lugar como outro qualquer, mas que para nós foi plenamente mágico.

Eva Ibbotson viveu isso quando era criança e o lugar nada mais era que um colégio interno. Não um colégio cheio de regras como a maioria dos internatos, mas uma escola progressista. Ela amou tanto este colégio e tudo que viveu ali que ele se tornou quase o personagem principal deste livro. Quase, por que as personagens principais são tão encantadoras e maravilhosas quanto esta escola deveria ter sido para a autora.

“O refúgio do príncipe” fala sobre a amizade e princípios. Um a garotinha de família humilde vai para uma escola interna, pois seu pai teme que a segunda guerra a atinja, e nos campos ela estaria segura. Lá, misturada a outras crianças tão diferentes e especiais entre si, a menina aprende a ser livre. Mas tem mais: o livro também conta a história de um jovem principezinho de um país fictício, Karil, que vive preso às convenções da monarquia. Filho único e sem mãe, ele sofre por não ser uma criança normal. Até que em uma feira escolar internacional realizada em seu país ele conhece Tali, a menina citada acima, e com ela e seus amigos travam uma amizade surreal. Mas aí a guerra eclode; Alemanha faz da Inglaterra sua inimiga e todos os países que dizem não à Hitler ficam em perigo, e isto inclui o pequeno país de Karil. Mas as crianças não entendem de guerra; entendem de amizade – e esta amizade supera todas as diferenças sociais e nacionais que o mundo adulto geralmente decide impor.

É um livro infanto-juvenil sim, mas nos deixa lições de liberdade que vale a pena serem analisados. Liberdade essa expressada no antagonismo entre uma modelo vivo que resolve dar aulas e cozinhar no colégio onde Tali vai estudar e uma atriz que esconde a filha para manter o sucesso e a juventude. As diferenças sociais e de caráter também estão marcadas na conduta entre o pai e o tio de Tali: ambos são médicos, porém o primeiro resolveu exercer a medicina em benefício da salvação do próximo, lhe rendendo horas extras de trabalho e condições medianas para prover a família, enquanto o segundo cobra fortunas de suas consultas e com isso adquire um padrão melhor de vida.  A narrativa é delicada, porém não deixa de pesar as mágoas de Karil e Tali quando suas dores são expostas. Ambientado no período da Segunda Guerra Mundial, flashes de como o a sociedade inglesa se comportou na época e como as crianças receberam essas mudanças é outro ponto forte da história.

Mas é inegável que a escola faz sua grande participação no contexto da história. Tanto que a autora reservou uma nota esclarecedora sobre ela logo no início do livro:

A história de O refúgio do príncipe é uma aventura imaginária. Mas o Colégio Delderton baseia-se numa escola para onde me mandaram há muitos anos e que me surpreendeu logo que cheguei lá, assim como surpreendeu Tali.
Quando cheguei, era uma menininha um bocado tímida e bem-comportada, de um convento de Viena, onde nasci. A primeira coisa que fiz foi uma reverência diante do diretor, que me recebeu no pátio do colégio – o que muito fez rir a crianças que observavam, a ponto de uma delas cair de uma árvore.
Logo me dei conta, no entanto, de que aquela era uma escola diferente de todas as outras. Aulas espantosas de biologia – que às vezes começavam às quatro da manhã - , uma cozinheira que havia sido modelo de artista, a cabana dos animais de estimação com sua coleção de bichos esquisitos – tudo isso fez parte de minha vida no colégio. Como Tali, eu achava difícil ser “livre” e “progressista” – no entanto, cedo incorporei aquele lugar estranho com o mesmo apreço que tivera pelo lar que perdi quando fugi de Viena -, o que não quer dizer que não fomos afetados pela guerra. Do telhado plano do ginásio do colégio. Minhas amigas e eu vimos Plymouth, a cerca de quarenta quilômetros de distância, incendiar-se


Um livro adorável, para crianças e adultos.


Cama Vazia

E quanta dor caberá dentro de você?
E como fazer para ela ir embora?


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Envolta de travesseiros, enquanto comia um chocolate, estava ela, ainda de pijamas, à escrever. Partículas do chocolate misturavam-se aos farelos de pão e biscoito, aos respingos de chá, café, leite e aos lenços de papel espalhados pela cama. Com uma obsessão adolescente, ela escrevia. Tinha plena consciência do Sol brilhando lá fora, pois sua luz teimava em atravessar as frestas da janela; porém, queria permanecer para sempre ali, quieta, em sua semiescuridão, escrevendo sobre sua dor e seus sonhos interrompidos.

A cama era grande, mas estava vazia. Ela e os travesseiros não conseguiam preencher a saudade angustiosa e indefinível que sentia. Poderia deitar-se em qualquer posição, ser a dona daquele espaço, espalhar-se e alongar-se; no entanto, teimava em posicionar-se à esquerda, como se esperasse que a vaga fosse milagrosamente preenchida.

Por várias vezes ela acreditou que seria; em todas elas se enganou. Eles partiram, levando consigo os sonhos que ela lhes impunha. Ao invés de amenizar-se, a dor da despedida fazia-se mais mortal a cada nova vez que ocorria. Porque precisava depender de outro ser para realizar seus desejos, queixava-se. Porque não poderia fazer sozinha, como tudo que conquistara na vida? No fundo ela sabia a resposta: o fardo era pesado demais. Natureza cruel.

Quando ela terminou de escrever e seu coração já se encontrava apaziguado, era tarde, a manhã há muito havia avançado. Ela queria que estivesse chovendo, que lá fora um vento frio e deprimente rodopiasse pelas casas, como reflexo de sua alma entristecida. Mas o Sol teimava em brilhar e penetrar insinuante pelas frestas. “Como o amor”, pensou.


E no fim, estava decidida: iria tentar outra vez.


sexta-feira, 1 de maio de 2015

A nuvem que chovia histórias

N
o cume de uma montanha, a mais alta do mundo, vivia um homem tão velho quanto a própria humanidade e tão só quanto a própria solidão. Infeliz? Não, ele não se considerava assim, pelo contrário: sentia-se o homem mais feliz de todos, longe da maldade que dominava os homens, vivendo de sua horta e cultivando seu imenso jardim, onde possuía um exemplar de cada flor existente, trazida pelos seus melhores amigos, os pássaros, que também lhe informavam como ia o mundo além da montanha. Como considerá-lo um homem só, se contando com as plantas e com os animais ele possuía mais amigos que qualquer homem na face da Terra?

Este homem, tão logo acordava pela manhã, ocupava-se em cuidar de seu jardim, para que os pássaros viessem se alimentar do pólen de suas plantas. Enquanto o regava, tratava das plantas, revolvia a terra retirando ervas daninhas e contava histórias. Elas falavam de amor, de bondade, esperança e principalmente de Deus. Ah, como eram belas as histórias que ele contava sobre o povo e Deus e daqueles que Ele enviou para ensinar aos homens sobre o amor... Certamente ouvira as mesmas quando criança – ainda que não recordasse da própria infância! Ao anoitecer, com o crepúsculo resplandecendo no horizonte, chorava pelos homens, e antes de dormir, pedia a Deus que tivesse piedade deles.

A recompensa de tanta bondade e perseverança foi o surgimento de fadas em seu jardim. Como o desejo daquele homem era que houvesse paz no mundo, através delas este desejo era realizado. Os minúsculos serem oníricos ajudavam os homens de bem em suas realizações; sua intenção era mostrar à todos que as boas ações eram merecidamente recompensadas, pois permitiam a realização dos desejos mais íntimos de cada um.

Aconteceu que, numa manhã de inverno, época em que as plantas recolhem seus botões, uma roseira desobediente desabrochou, fazendo surgir uma linda rosa vermelha, e dentro dela, uma pequena fadinha. As outras fadas ficaram assombradas, pois nascimentos só são esperados na primavera, e não sabiam o que fazer com a pequenina. Frágil e ainda indefesa, ela não poderia acompanhá-las em suas missões pois viria a perecer; o mesmo aconteceria se permanecesse ali naquele frio. O que fariam então?

Por sorte o rubro da rosa em meio à neve chamou a atenção daquele velho homem, que foi verificar do que se tratava e ficou maravilhado com a rosa temporã. Achou-a mais que bela: um verdadeiro milagre dos céus de desafio e resistência, e resolveu levá-la para casa. Lá a colocou em um jarro de água e começou a cercá-la de cuidados. As outras fadas logo se alegraram, pois agora tinham a certeza de que sua irmãzinha ficaria bem.

Todos os invernos eram de solidão e muito trabalho para aquele homem: os pássaros, seus amigos, partiam em busca do verão, e as plantas que não resistiam ao frio exigiam um pouco mais de sua atenção para não perecerem. Passava todo o inverno rememorando histórias, colocando alguns pontos, reinventando-as ou simplesmente criando novas, para contar aos seus amigos quando estes voltassem. Mas naquele inverno ele não estava só, pois tinha sua rosa. E foi para ela que ele dedicou grande parte de sua atenção, contando-lhe histórias. Não sabia, porém, que dentro da rosa havia uma fada e esta se desenvolvia cada dia mais radiante pelas histórias que ele contava. 

E enfim chegou a primavera, e com ela novas flores no jardim, e principalmente mais fadas. O velho homem voltou alegremente ao seu ofício de cuidar de seus amigos e contar-lhe as histórias, como se a aventura invernal tivesse sido apenas mais uma delas. Logo, nenhum dos outros seres que habitavam aquele lugar estranhou quando o velho, um pouco pesaroso, levou a rosa, agora já com galhos, para seu jardim. Não podia deixá-la em casa pois não podia amá-la mais que às outras, então tratou de esquecê-la. Mas a fadinha que vivia dentro daquela rosa não o esqueceu, e esforçou-se mais que as outras para realizar o sonho dele.

Ah, quisera que os outros humanos fossem como aquele velho homem, que olhassem uns para os outros como ele olha para as flores em seu jardim: cada uma tem a sua beleza, mas são tratadas igualmente, não havendo mais belas, nem mais feias. O mesmo olhar que lança para as flores lança para as ervas: para aqueles olhos todas são iguais. Pudera também os seres humanos amassem tanto uns aos outros como ele os amava. Chorava à noite, pedindo à Deus que perdoasse aqueles que nada fazem para lutar por um mundo melhor. Às vezes pensava em voltar para o mundo além da montanha, em como gostaria de passar sua mensagem para eles, mas temia ser sufocado pela arrogância do povo; sentia que seria impossível. Só lhes restava rezar.

Foi pensando neste desejo que a fadinha teve uma ideia: fez um feitiço de maneira que cada história que o velho contava tornava-se vapor e ia se juntando lá no alto do céu, formando uma nuvem. Quando estava bem carregada, a nuvem se afastava e ia para as cidades. As pessoas logo se preparavam para um temporal, mas quando davam conta de si, sentiam sua imaginação fervilhar de histórias bonitas que logo eram contadas para outras pessoas, que contavam para outras, e contavam para outras... até que todos tinham conhecimento da história. E assim muitos mudavam o modo de ver o mundo – mesmo que outros não se importassem. E assim a nuvem seguia carregando e descarregando sempre...
Até que um dia, o velho partiu finalmente; já era chegada a sua hora. Deveria ser motivo de tristeza para os seres que ali habitavam mas foi de muita alegria pois todos sabiam que ele estava no céu, aos pés do Senhor. Somente a fadinha ficou triste: o que seria da sua nuvem de histórias? Era a única coisa que imortalizava aquele senhor que vivera tanto quanto qualquer mortal e permitiria que seu trabalho e suas orações tocassem os homens. Não haveriam mais histórias... Foi então que as outras fadas, percebendo seu pesar e conhecendo seus motivos tiveram uma ideia: transformariam toda boa história que saísse da boca dos humanos em nuvem para desabar em outros corações.

E assim aconteceu. Por muitos anos a nuvem carregava e descarregava milhares de histórias no coração dos homens, e mudavam suas atitudes, seu jeito de pensar. No entanto, é uma pena que a maldade dominava muitas mentes, impedindo-os de viver as maravilhas da nuvem que chovia histórias. Ela acabou tornando-se uma névoa, uma bruma, e são poucos os que a sentem e absorvem seu encanto, como eu.

Ah, como seria bom se todos pudessem ver, sentir, se envolver e trazer de volta a nuvem que chove histórias! Uma pena que o sonho do velho homem ainda esteja bem longe de se tornar realidade...! 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Meus 'Eu's

Segue uma linha filosófica de que tudo que temos aqui foi projetado por nós em outro plano. Todas as nossas conquistas e nossas derrotas são frutos da projeção dos nossos pensamentos. Outra linha diz que todas as possibilidades existem paralelamente e que o que fazemos, é apenas visualizar aquela que mais nos agrada. 
Quantos planos paralelos podem existir em um só dia?



Meu eu atravessou a rua depressa para não perder o metrô.
Meu outro eu despediu-se calmamente depois de uma gargalhada gostosa e muitas promessas de encontros em breve; ligou o ar do carro e deixou as janelas abertas para poder refrescar.

Meu eu sentou-se no banco risonha, meditando sobre tudo que aconteceu; o encontro fortuito, a conversa alegre, o contato inesperado... Enfim, reviveu naqueles minutos de viagem, entre uma estação e outra, o dia que se passou.
Meu outro eu ajeitou o próprio cinto de segurança. Olhou pelo retrovisor a criança que voltara a dormir depois de devidamente acomodada em sua cadeira. Como um olhar nunca basta, passou a mão em suas perninhas para sentir aquele calor que jamais era blasfemado. Engatou a marcha. Partiu para casa.

Meu eu estava atento às pessoas que saíam com ele junto ao metrô enquanto mirava o ponto de ônibus para mais uma baldeação; meu outro eu olhava atento os motoristas de final de semana.

No ônibus, a ligação preocupada da mãe, já na subida da ponte, vem com misto de bronca e preocupação: “Vai demorar muito?” “Depende do transito: estou na ponte. Acho que não. Como o pai está?”, “Ah, sabe como é: já está dormindo”. E daí palavras aceleradas, “‘tchau’s” confundidos com “‘te amo’s”, pois na ponte o sinal não funciona

No carro é o marido quem liga, neste caso sem a bronca, apenas a preocupação: “Vai demorar muito?” “Depende do transito: estou na ponte. Acho que não”,“Como ela está?”, “Ah, sabe como é: já está dormindo!”. Daí mais algumas declarações, “‘te amo’s” que não se confundem com “‘tchau’s”, promessa de companhia até em casa, mas na ponte o sinal ainda não funciona.

Finalmente em casa, a mãe já está dormindo; o marido, acordado. Ele retira a criança do carro e a coloca na cama; em outro plano, a eterna criança beija a fronte dos pais, tentando não acordá-los. Mas a mãe sempre está acordada. “Como foi lá?”, mãe e marido perguntam. “ Foi tudo bem, com a graça de Deus”, meus “eus” respondem.

A ducha morna; a banheira aquecida; ambos relaxam.
Logo vem a hora de dormir aninhado;
Logo vem a hora de sonhar acordado.

E assim o dia se encerra, nestes dois planos distintos. Intrínsecos? Paralelos? Algo que passou ou algo que virá? Algo que existe?

Quem sou eu? Qual é meu verdadeiro eu?

‘Eu’ Estou exatamente onde devo estar...!


(Imagem: os Pilares da Criação - NASA. Obs: Esta estrutura foi destruída à aproximadamente 6.000 anos. Mas daqui ainda conseguiremos observá-la por pelo menos mais mil anos...) 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Bolinhas de Gude Azuis


Às vezes fazemos coisas estúpidas em nossas vidas. Grandes ou pequenas, essas “coisas estúpidas” nos acompanham para sempre.

Era verão de 1982. Aquela estrutura estranha pairava na praia do Arpoador onde eu e meus amigos costumávamos mergulhar na infância. Mas enquanto alguns vibravam ao som de “areias escaldantes” eu, um ex-“menino do Rio” suava em um terno entregando despachos para cima e para baixo, nas quentes ruas cariocas, da zona norte à zona sul. Eu era ambicioso, e aos vinte e poucos anos já tinha um apartamento micro em Copacabana, bem longe da praia é verdade, mas era em Copacabana. Apesar da adolescência festeira, a ditadura fez-me  ingressar cedo no mercado de trabalho, e ao contrário da maioria das mentes jovens daquela época, que gritavam por liberdade e ordem, eu só queria uma melhor condição de vida para poder aproveitar a vida sem passar por necessidades no dia seguinte. 

Assim, trabalhava com afinco. Até o dia em que ela cruzou o meu caminho e mudou meu modo de pensar.

Encerrava meu último expediente antes das merecidas férias, após quase 7 anos trabalhando e estudando sem  parar. Estava cansado, mas ansioso; não planejara nada em especial além de praia, chope, um show aqui outro ali, essas coisas. Caminhava assobiando para casa, retardando cada passo e aproveitando o descompromisso, sentindo a liberdade, observando as crianças brincando nas ruas próximas ao meu prédio – naquela época era comum ver crianças divertindo-se na rua durante o verão. Havia uma menininha de vestido xadrez e um laço frouxo pendurado no cabelo que tentava em vão acompanhar a correria das outras crianças. Cheguei em casa, tomei um banho demorado e abri uma cerveja – a única da geladeira - e me joguei no sofá. Mas a noite estava bonita e resolvi caminhar na praia. Qual não foi minha surpresa quando, em frente à portaria, sentada nos degraus da escada, estava a mesma menininha de vestido vermelho que eu vira mais cedo?  Aparentava mais ou menos dois anos e estava suja de tanto brincar. Perguntei ao porteiro quem eram seus pais  e ele disse que não havia reparado que havia uma criança ali. Fui até ela e perguntei-lhe onde estava sua mãe mas não me respondeu. Tinha um olhar parado, atento à rua, como à espera de alguém. Não parecia assustada nem perdida: tinha a segurança e a certeza de que alguém logo logo viria buscá-la.

Entenda: eu poderia ter partido. Poderia ter feito minha caminhada, tomado mais algumas cervejas na praia, enfim, seguido o que decidira fazer. Mas aí esta história não aconteceria. O fato é que  fiquei ali sentado ao lado daquela menina, cuja imobilidade e cachinhos castanhos a balançar na brisa faziam-na parecer uma boneca de porcelana. Era intrigante estar sentada quieta por tanto tempo, sem demonstrar um mínimo de desassossego. O porteiro se aproximou de nós, trocou comigo algumas palavras, disse que nunca a tinha visto, que poderia ser de alguma visita dos prédios vizinhos. “Mas as crianças há muito deixaram a rua e ninguém viera reclamar a menina!”, falei. Ele deu de ombros e voltou para seu lugar. As pessoas passavam, entravam no prédio, sorriam, acenavam, e ela toda poucos gestos: um inclinar de cabeça, um meio aceno com a mão, um sorriso tímido para o próprio colo... e tornava a mirar a rua. Uma vizinha nova chegou a me perguntar se era minha: “Não, estamos esperando a mãe dela!!” respondi assustado. Filhos não faziam parte dos meus planos. Mas as horas passavam e ninguém aparecia. A menina suspirava e esperava. Já havia lhe levado água, lhe dado biscoitos, mas ela não falava e  eu não sabia mais o que fazer. Percebi que o porteiro estava impaciente querendo fechar o prédio, mas só quando vi sua cabecinha tombar para frente, de sono, é que cedi à pressão: tomei-a no colo e a levei pra casa.

Um homem acolher uma criança de dois anos em seu apartamento não era visto com tanta maldade naquela época graças à Deus, por isto nada de ruim passou pela minha cabeça; eu só queria protegê-la. O porteiro falou que ia dar problemas, mas ele mesmo foi testemunha que a criança estava sozinha há muito tempo sem que ninguém aparecesse. Disse que avisaria caso alguém chamasse reclamando pela criança e isso me tranquilizou, deu-me a certeza de que fazia a coisa certa. Naquela noite eu a acomodei em minha cama e fui dormir no sofá, um sono sobressaltado, à espera de que alguém batesse na porta. Mas ninguém bateu.

No dia seguinte fui até a delegacia dar parte de criança encontrada. Os procedimentos eram menos eficientes que agora – a nossa boa e velha burocracia. Esperamos por algumas horas até sermos encaminhados ao conselho tutelar. A manhã não havia sido boa, pois ela acordou assustada e eu que não tinha nada em casa para uma criança comer acabei socorrido pelos vizinhos. Ao chegarmos no conselho ela estava inquieta em meu colo, suspirava e se agitava a qualquer manifestação de deixá-la sentada longe de mim. Tive que preencher a papelada com ela agarrada em meu pescoço; segundo as normas, seria encaminhada para um lar adotivo. No momento em que a levaram ela gritou muito, mas eu sabia que seria conduzida para onde cuidariam bem dela. Eu saía do local certo de que havia cumprido com meu dever de cidadão, quando me chamaram de volta.  “Desculpe, senhor, sabemos que não tem o perfil adequado para ficar com uma criança mas todos os nossos lares estão cheios por causa das crianças perdidas no Reveillon...” foi dizendo a assistente. Eu pressupus aonde ela queria chegar, e quando me dei conta, depois de um “sim” e mais um monte de papéis, voltava com a menina para casa.

A esta altura os mais românticos devem estar me parabenizando, dizendo “nossa, que gesto altruísta ele teve!” mas a verdade é que até hoje não sei o que me levou a aceitar aquela oferta. Eram minhas férias e eu teria uma criança desconhecida em casa! Eu, que vivia para o trabalho, que não conseguia manter uma namorada sem analisar as despesas que isto traria para o meu bolso, tinha em meu tapete um bebê que só corria e sabia fazer coco (era 1982, fraldas descartáveis não eram tão acessíveis!). Eu não tinha paciência com crianças, na verdade nunca prestara muita atenção nelas além do necessário. E no entanto, ela estava ali.

 Como seria minha hóspede, comprei-lhe brinquedos e roupas. Aos poucos ela foi se soltando e começou a falar  - falar não, porque eu não entendia nada!Tentei lhe ensinar alguma coisa mas ela não aprendia. Os vizinhos souberam da história e se revezaram entre ajudar com sugestões úteis e oferecimentos prestativos e informações inúteis com comentários pejorativos. Mas à noite éramos só eu e ela em um apartamento micro de uma cidade escaldante. Semanalmente um assistente social ia nos visitar, tomava notas, perguntava se havia problemas em ela ficar mais um pouco e ia embora. Para ajudar eu coloquei um  um anuncio no jornal dando seus dados e meu endereço, mas depois que um casal lunático bateu em minha porta, achei melhor deixar a busca pelos responsáveis por conta do Conselho Tutelar!

Um mês se passou e eu resolvi contratar uma babá. Não recebia nenhuma notícia positiva e como tinha que voltar a trabalhar não podia levá-la comigo. Minha rotina tornara-se acordar, mamadeira, trabalho, casa. No retorno ao lar  a babá ia embora deixando todos os brinquedos espalhados. Um dia me deu uma bronca por não saber o nome da garota e só a chamava de Menina: como ela respondia, passei a chamar também. Mas acordar as cinco para mamadeiras, chegar tarde no serviço, chegar à tempo em em casa para dar janta, ficar acordado até tarde da noite repondo serviços atrasados estava me deixando com olheiras até os pés. Ela estava me deixando louco, e por vezes achava que a . odiava,  mais que tudo no mundo. Porém não queria tirar ela daqui.

Finalmente, seis meses após ter feito o boletim sobre ela, recebi uma intimação do Conselho Tutelar, pois os seus responsáveis haviam sido encontrados. Era um casal jovem, de olhos claros também, vestidos como se tivessem saídos do Festival de Woodstock. Falavam inglês, língua que não dominava na época mas por sorte havia uma interprete que me explicou que o casal perdera a menina na rodoviária. Então viram o anuncio antigo que eu mandara publicar no jornal, mas a agência solicitou que procurassem no conselho. Eles tinham os papéis certos, os documentos certos. Ela se jogou nos braços deles como quem revê velhos amigos, e como velhos amigos,  levaram na embora.
Naquele domingo levantei às cinco para preparar a mamadeira. quando percebi que não havia o que se preparar, ela havia partido. O apartamento finalmente estava silencioso. Tentei voltar à dormir  mas não consegui e me perguntava aflito se até não estando lá ela me atormentava. Lembrei-me de quando chegava em casa depois de um dia cansativo e aquelas bolinhas de gude azuis me olhavam pedindo um pouco da minha atenção e eu as ignorava. Olhei as horas, dava tempo: me arrumei e corri para o aeroporto. Maldito taxi, maldito trânsito, malditas horas. Quando cheguei no aeroporto já era tarde: o avião estava partindo, ela estava indo e eu não podia fazer nada.

Quando comecei este texto falando de coisas estúpidas na certa deverão estar imaginando que a coisa estúpida que eu fiz foi, sem experiência alguma, ficar responsável por aquela criança. Mas não; a estupidez pela qual me condeno é de não ter tomado o contato daquelas pessoas que levaram minha criança embora. Até hoje me pergunto se ela sente frio, se está contente, se se lembrou de falar “ombush” quando viu um, se sentiu a minha falta. Hoje aquele bebê que despertou em mim o desejo de ter uma família deve ter sua própria família, senão seus próprios netos, considerando a juventude de hoje em dia.

Naqueles dias odiei-me por nunca ter lhe falado ou apenas demonstrado o quanto eu apreciava a sua presença.. Se eu pudesse revê-la, se eu pudesse voltar no tempo... ah, tantos “sês”... De todos eles a única certeza é a de não revê-la nunca mais!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Aurora

Philip Pullman certa vez disse ao publicar um de seus contos que um conto ás vezes pode ser simplesmente um conto, uma história isolada, ou fazer parte de um romance que ainda não foi escrito. Como pequenas histórias de vidas paralelas que se cruzam, pequenos contos podem ser entrelaçados e se tornarem uma grande história.

Se é o caso do pequeno conto a seguir, só o tempo responderá...

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O tempo parou. No espaço nada se movia. Todos permaneciam em silencio absoluto; tudo se encontrava em absoluta espera. Até que enfim ela chegou. Tranquila, serena, encantou a todos com sua pureza infantil. Sim, ela era linda, e era para todos a joia mais rara do universo.

Terminada a exposição, bocejou. Estava cansada. Era tanta novidade em torno de si que ela mal conseguiu acompanhar, mas queria ver a todos. Sua mãe, a Noite, suavemente a carregou até seu dormitório e a pôs em seu cesto de dormir. Enquanto sua loura cabecinha era acariciada, suas pálpebras iam suavemente escondendo as pérolas azuis que eram seus olhos. E embalada por uma canção de ninar, dormiu, sob os olhares atenciosos do pai e da mãe.

Aquela foi a única vez em todos os tempos que não houve dia nem noite, apenas apenas a mistura de uma escuridão que não clareava e claridade que não escurecia.

Assim foi o dia que a belíssima Aurora nasceu.  

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Violinista



      Há um homem que eu vejo passar frequentemente. Na verdade eu passo; ele está parado. É um violinista.
        Quando o ouvi tocar pela primeira vez era Natal, e a melodia me encantara. Eu não tinha trocados, não pude lhe agradecer a música concedida. Mas a melodia ficou em mim. Depois, vez por outra, ele estava tocando em algum lugar das ruas por onde eu passava. E se de início havia muitas pessoas em volta admirando-o, depois tornou-se figurinha fácil, outros concorrentes surgiram e as pessoas foram perdendo o interesse.
         Mas eu não.
        Eu nunca parava, não conseguia, mas a música sempre chamava a minha atenção, me acompanhando enquanto seguia meu caminho. Por alguma razão estranha passei a olhar bem dentro dos seus olhos quando nossos caminhos se cruzavam; ele parado, eu seguindo, buscando em  sua face o rosto de um velho amigo. Tornou-se tão conhecido para mim que quando o encontrava sem os seus instrumentos, minha memória enviava a mensagem de que era alguém de quem eu gostava. “Quem é ele, de onde eu o conheço?” eu me perguntava. “Ah, já sei, é o violinista”.
      Fantasiei-lhe uma história digna dos heróis românticos do século XIX, os músicos boêmios, que tentavam a sorte de lugar em lugar, despedaçando-se em amores vãos ou em busca do sentido na vida. Eu o vejo em silencio, embriagado de alegria por uma nova composição, sozinho em um quarto mal arrumado, em uma pensão em decadência. Pode parecer estranho, mas é um pensamento que me dá paz, me leva a um estado de eterno Natal, onde a música e a poesia são os ingredientes de um viver feliz.
        Então eu viro para o lado, caio da minha cama e acordo; afinal ele é somente um violinista de rua! Alguém que resolveu ganhar algumas moedas em troca de demonstrar o seu trabalho. Nada sei sobre ele além disso.

        Ainda assim, quando o som da sua música vier me chamar e nossos caminhos se cruzarem, meus olhos vão sempre buscar os seus, minha boca vai abrir-se em um sorriso tímido, e eu seguirei adiante. Até o dia em que, talvez, pare, e numa pausa entre suas canções, tome coragem de finalmente lhe falar: “Como vai, meu amigo?”




Créditos da imagem: http://wmky.org/programs/sunday-night-jazz-showcase