sábado, 16 de dezembro de 2017

Arquimagos - Explorando Labornok

Atenção: esta é uma fanfic baseada na obra "A senhora do Trílio" de Marion Zimmer Bradley, por sua vez parte integrante da série Trílio, onde participaram também as autoras Julia May e Andre Norton.

Capitulo XIV


  
Uma mão silenciou o grito da arquimaga. Ela curvou-se sobre aqueles braços e chorou a morte da mulher e das duas jovens. Estava em choque, e por isso abraçou-se àquele corpo em busca de consolo. Só então notou que era um corpo estranho, com pelos demais e um cheiro desconhecido. Abriu os olhos: quatro pares de olhos desconhecidos a miravam, curiosos e ameaçadores. Ela tentou desvencilhar-se dos braços e gritar por Fiolon, mas uma mordaça foi colocada em sua boca e uma pancada a deixou desorientada. “ O truque de D. Angélica deu muito errado!”, pensou, enquanto seus captores arrastavam seu corpo para a parte externa da casa. Foi a visão de Fiolon com o rosto machucado e tendo as mãos atadas que a tirou do torpor.
– Não... não! Porque estão fazendo isso??
Aquele que a segurava apenas riu.
– É macho! – entendeu alguém dizer.  ­– Vamos levar?
– Sim, jogue na carroça... Mas esta aqui não serve. Alguém quer?
Mikayla não precisou pensar muito no que aquelas palavras significavam. Logo um daqueles seres – o bando parecia ser uma mistura de odlings e humanos quase não identificáveis – debruçou-se sobre ela rindo.
– Tire as mãos da minha esposa! – o grito ecoou pelo ar. Os seres estacaram procurando de onde vinha aquela ameaça.
Fiolon não é um guerreiro. Desde cedo foi, na medida do possível, treinado para ser um nobre. Sua ambição de futuro quando criança era ser músico, então se dedicou com afinco a isto, negligenciando as aulas de combate. Mas o destino quis que ele se tornasse um arquimago, e a partir daí precisou dedicar-se ao estudo da magia. Assim, amarrado como estava – e mesmo se não estivesse, não arriscaria uma luta corpo-a-corpo – sua única alternativa para sair daquela encrenca era apelar para a magia. O truque era simples: tornou-se invisível e deslocou sua voz para diversos locais a fim de assustar seus captores. Paus e pedras começaram a voar acertando o bando e afugentando alguns. Mikayla conseguiu se desvencilhar daquele que a segurava, correu e montou o fronial que conduzia a carroça para fugir.
– Por Meret, é um maldito truque! – gritaram atrás dela. Flechas voaram em sua direção e acertaram o fronial, que caiu, derrubando-a. Só então ela se deu conta que pegara a carroça errada: Fiolon ainda estava nas mãos de um dos bandidos, agora com a perna ferida. Alguém desconfiara do engodo e o esfaqueou e a perda de sangue desfez o feitiço.
– Acha que não conhecemos magia garoto? Nos acha tão inferiores assim? – gritou o bandido na cara de Fiolon. As pernas de Mikayla doíam por causa do tombo, mas quando conseguiu se concentrar para usar alguma magia, foi novamente imobilizada.
– Se você não fosse tão valioso, rapazinho, tiraria sua vida agora mesmo, só pelo seu abuso. Mas existem outras maneiras de te fazer sofrer. ACABEM COM ELA!
Aqueles que estavam perto de Mikayla desferiram-lhe golpes violentos. Fiolon gritou, mas seu grito foi abafado pela mordaça. As veias em sua garganta saltaram e seus olhos se arregalaram, mas estava incapaz de fazer qualquer coisa. A ira tomou conta de seu corpo, e ele só tinha olhos para o que estava acontecendo com Mikayla. E Mikayla também só tinha olhos para ele.
Foi então que tudo mudou: quando os olhares dos arquimagos se encontraram, ambos alheios à própria dor, mas totalmente cientes da dor do outro, o ódio contra aqueles malfeitores e a vontade de destruí-los dominou suas mentes. Na mata, os animais se assustaram com o o forte vendaval que surgiu repentinamente. Aquele que atacara Fiolon engoliu a gargalhada: esperava ser um novo truque, só que ao olhar para o rapaz não via mais um rapaz: via um ser de cabelos brancos e olhos sem íris. Aqueles que estavam com Mikayla se afastaram, pois ela também era um ser diferente, de olhos e cabelos completamente brancos. Também havia fúria em sua expressão.
Algo no céu brilhou e atraiu a atenção dos captores. Três círculos se formarem e se alongaram até se parecerem uma flor. Era um trílio. Um trílio dourado.

– Mas o que significa isto? – quis saber alguém. Como resposta um jato de luz acertou em cheio o seu coração e os dos demais. Em uma fração de segundos, todos os captores foram dizimados.

***


Quando despertou do transe, Fiolon se viu boiando num rio, agarrado a um tronco de árvore, com uma Mikayla desacordada em cima. A garota estava com a blusa rasgada, sendo possível ver os hematomas causados pelo espancamento. Como a correnteza estava amena, ele conseguiu alcançar a margem e tirá-los da água.
– Mika... Minha princesa, por favor, acorde! Fale comigo sim? – tentou despertá-la. A pele dela estava gelada por causa da água e como não havia algo seco para vesti-la, sentou-se com ela ao sol, retirando-lhe a blusa e as botas – ele hesitou em tirar suas calças. Também retirou a própria blusa e envolveu a garota em seu colo como uma bola, soprando-lhe as mãos e esfregando-lhe os pés, apesar do corte em sua própria perna dificultar um pouco as coisas. – Minha querida fale comigo, por favor! Meu amor, eu te proíbo de morrer e me deixar sozinho cuidando das duas terras!
– E fazer de você o viúvo mais cobiçado de Var?  Nem pensar! – gemeu Mikayla, e Fiolon respirou aliviado – Mas eu estou gostando de te ouvir me chamar de “minha princesa”, “minha querida”,”meu amor”...
– Sua bruxinha! – ele fingiu zangar-se, mas estava feliz: beijou repetidamente seu rosto e apertou-a ainda mais em um abraço, só se dando conta que isto a machucava quando ela gemeu de dor. Ele afrouxou o abraço e ficaram assim parados por um tempo até Mikayla adormecer novamente e ele, ao perceber que a temperatura dela estava equilibrada, tratou de levá-los para um local mais seguro. Achou prudente fazer uma pequena fogueira, ainda que tivessem que apagá-la quando escurecesse para não chamar a atenção no meio da noite, mas até lá o calor secaria suas roupas. A capa, de material semi-impermeável, secara enquanto ficou estendida ao sol. Ele a usou para envolver Mikayla e deitou-se ao lado dela.
– “Fomos nós?”
A pergunta invadiu a mente do rapaz, trazendo-o de volta do limiar do sono. O céu já estava  escuro; ele debruçou-se sobre a jovem e pode ver o brilho da fogueira, já fraca, refletido nos olhos dela. Estava acordada.
– “Fomos nós lá em cima, no moinho?”
–“Não sei Mika” – ele afagou-lhe a cabeça – “Não fomos treinados para usar nossos poderes ferindo os outros, ainda que saibamos que isto é possível. Mas eu acho... eu acho... que sim!”
Mikayla começou a chorar baixinho, e ele pode sentir a sua dor. Violência nunca fora o forte dos dois.
– Eu jamais permitirei que alguém lhe faça mal – sussurrou ele.
– Mas aquilo... aquilo! – Mikayla gemia nervosamente, lembrando todo o horror que vivera algumas horas atrás. Por mais que tivessem que pagar pelo que haviam feito à D. Angélica, não achava justo que alguém devesse morrer com o corpo explodindo em mil pedaços.
– Shhii, eu sei...eu sei! Mas eu não consegui pensar em outra coisa quando vi o que eles iam fazer com você.
E sim, ele sabia. Podia ver nas memórias dela o que ambos sofreram e o momento da transformação. Suas próprias imagens tornaram-se tão ameaçadoras em suas lembranças que ambos tremeram: cabelos e íris brancas somadas à expressão de cólera os levaram ao horror, mas não tanto quanto a chacina em si. O trílio no céu, símbolo de Ruwenda, não deixava dúvidas que aquilo fora obra deles. Depois do extermínio, a queda, provocada pela explosão dos círculos, cujo impacto destruiu a parte do barranco em que estavam, jogando-os no rio.
– “Eu não sei o que eu fiz!”
– “Nem eu Mika. Mas aquilo não foi natural, e não podemos ignorar os fatos:”

“Desejamos uma coisa. E ela aconteceu”



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