sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Arquimagos - Casamento de Arquimagos

Capítulo VIII


A Cidade de Tas amanheceu bastante movimentada. A primavera estava em seus dias derradeiros, o que significava tempos de chuva a caminho; assim eram os verões em Ruwenda, quentes e bastante úmidos. Chovia quase todos os dias no meio da tarde, o que tornava o trabalho dos ambulantes e feirantes quase impraticável, por isso desesperavam-se para eliminar o maior número de mercadorias possíveis, principalmente as perecíveis.
                Aquela movimentação toda encantava Mikayla. Achou que estava com repulsa a multidões quando se incomodara com os nobres no castelo, mas daquela multidão ela gostava. Há dias ela e Fiolon estavam navegando rio abaixo e aquele fora o primeiro porto em que desembarcaram. Levavam consigo pouquíssimas provisões – o restante de seus pertences seguiria de barco já que não havia estradas decentes para transitar com grandes volumes entre Ruwenda e Var: um grande desfiladeiro separava a Cidade de Tass da Floresta Tassaleyo e o caminho por ali era no estilo lá-vai-um.  Assim, ao invés de dar a volta necessária para chegar à parte menos elevada da fronteira (quase adentrando o Reino de Zinora) juntamente com os seus bens, os arquimagos decidiram descer o desfiladeiro. Fiolon tinha pressa de apresentar a sua moradia oficial em Let à princesa. Somente dois guardas acompanhavam o casal, que não queria se passar por nobres; e uma vez que seus rostos não eram tão conhecidos, misturavam-se facilmente entre o povo humano e as tribos odlings.
                Da janela de seu quarto, localizado no segundo andar de uma hospedaria para comerciantes, Mikayla olhava o ir e vir do povo nas vielas e nas ruas. Os humanos e as tribos circulavam pacificamente entre si e aquela mistura dava-lhe paz. Seus dezoito anos de vida dividiram-se em vida na corte, idas para os pântanos a fim de explorar e, nos últimos seis anos, no convívio com o gelo das montanhas. As viagens às cidades como substituta da arquimaga ocorriam á noite, quando os povos estavam dormindo, por isso o fascínio ao estar entre eles depois de tantos anos. Divertia-se com aquela intensidade: aspirou fundo para captar os cheiros que vinham da rua... e desmaiou!
                Voltou a si abrindo os olhos devagar, tentando reconhecer o ambiente a sua volta. Estava na cama, e uma voz estranha falava no vestíbulo.
                – Ela ficará bem. Só precisa descansar e alimentar-se melhor. O senhor disse que vieram das montanhas? Bem a diferença de pressão no ar costuma afetar que está à caminho de lá não o contrário...
                – Já estamos nas partes baixas há bastante tempo...
             – Temo realmente ser o principio de uma subnutrição, ela é muito magra para a idade que tem... Quantos anos disse?
– Dezoito.
– Dezoito, certo...
“Céus, eu devo ter desmaiado feio para Fiolon chamar um curandeiro”
“Muito feio”, a voz de Fiolon penetrou em sua mente. Ele parecia zangado e ao mesmo tempo aliviado. Não demorou muito estava sentado na cama ao lado de Mikayla, querendo saber como ela se sentia.
– Bem, eu acho... O que aconteceu comigo?
– Eu senti algo estranho, uma ausência. Vim vê-la e a encontrei jogada no chão de olhos abertos. Eu me desesperei porque não conseguia alcançar seus pensamentos...Agora consigo ouvir você bem, e a sensação de nada passou... Foi alguma coisa com a terra?
– Oh! Pelos Senhores do ar, a terra... – Mikayla se deu conta de que desde que chegara a Cidadela não vistoriava a terra. Sentia as variações, mas não focava nelas, como aprendera a fazer. Culpou-se internamente com tamanha irresponsabilidade.
– Você esqueceu... – murmurou Fiolon, que lera a sua mente. – Tudo bem, faremos a vistoria juntos, quando você estiver mais fortalecida. Se houver algum problema em Laboruwenda uma arquimaga fraca não vai ajudar...
Porém os pensamentos de Mikayla se tornaram mais preocupantes:
– Fiolon, eu não estou morrendo, estou? Eu não posso estar: acabei de me tornar arquimaga, sou jovem, forte, saudável!
– Eeeii... De onde veio tamanha tolice? – ele a abraçou. Em seus pensamentos as lembranças das síncopes da Arquimaga Haramis passaram instantaneamente – Não é o mesmo com você está bem? Acredito mesmo que tenha sido pela mudança de ares.
– Acabamos de nos casar...
– E permaneceremos assim por um longo tempo!
Ficaram um longo tempo abraçados, cada um com suas preocupações próprias em torno do possível mal que a terra estivesse reclamando. Fiolon conectou-se a Var, tentando encontrar alguma informação a partir dali, mas o problema certamente era no país em que se encontrava. Alguém bateu na porta, e ele lembrou-se que os guardas que os acompanhavam aguardavam notícias de Mikayla e foi atendê-los, informando que a princesa se encontrava bem, porém adiariam a viajem em um ou dois dias. 
Assim que se viu sozinha Mikayla não perdeu tempo: estendeu os braços e uniu-se à terra.
Como um pássaro que atravessa os ares assim era a visão da arquimaga ao vistoriar suas terras. Começou de onde estava, da Cidade de Tass, e avançou até as fronteiras de Var, percorrendo toda a floresta Tassaleyo. De lá retrocedeu até a Cidadela e partiu para os pântanos Verde, Negro e Labirinto, onde viu os habitantes nyssomus. Passou pelas ruínas dos Desaparecidos, onde encontrara o colar que ela e Fiolon usam para se comunicar a longas distâncias, e avançou para as Montanhas Ohogan, eternamente cobertas de gelo. No monte Brom, avistou Enya e alguns empregados limpando o pátio para evitar que a neve cobrisse as placas solares das quais ele era feito e que sem sua energia grande parte dos artefatos tecnológicos da torre deixavam de funcionar; passou pelo Monte Gidris e seu coração estremeceu ao ver as ruínas do Templo de Merrit, destruído por Haramis, e finalmente, o Monte Brom, onde habitava seu amigo, o abutre gigante Olho vermelho, finalizava a vistoria por toda parte Ruwendiana.
“Até aqui tudo bem”, pensou Mikayla. No entanto, quando ultrapassou a antiga fronteira entre Ruwenda e Labornok sentiu um baque muito forte e por pouco não tornou a desmaiar; algo, no entanto, a manteve firme. “Então aqui é o problema!”. Ela retornou devagar para o seu próprio corpo e ao chegar à Tass sentiu a presença que a ajudara a manter-se firme: ainda semiconsciente estendeu uma das mãos para aquela presença e pode sentir o imenso carinho que o Lorde Branco de Var lhe dispensava.
“Porque não me esperou?” Ele quis saber, tão logo as barreiras impostas por Mikayla enfraqueceram.
“Sou a Arquimaga de dois reinos; estive prestes a falhar com eles e preciso reparar isto”
“Podemos fazer isto juntos, você sabe!”
“Sim, eu sei, mas também quero fazer algo por mim mesma. Não poderei depender de você para sempre. Ainda não aprendi a controlar e entender os anseios da minha terra tanto quanto você compreende Var.”
“Eu temo que algo te aconteça”
Mikayla apertou de leve as mãos do marido. Quando abriu os olhos, plenamente consciente em seu corpo, foi recebida por um sorriso amável.
– Precisamos voltar para a torre.
– Algum problema com Ruwenda?
– Não, estas terras estão bem. Preciso me preparar para explorar Labornok.
O sorriso amável desapareceu.   


Na clareira, o grupo se reunia sob a luz do Luar. A fogueira brilhante tocava o céu, aquecendo aqueles que dançavam a sua volta. Riam e brincavam, embriagados pelo néctar da bebida ardente que queimava a garganta e lhes davam uma sensação de paz e felicidade. Sentiam-se livres, como há muito tempo não se sentiam. Seres mascarados juntaram-se a eles naquela estranha dança. Alguns ficaram hipnotizados; outros, mal repararam. De um ponto afastado, porém alto e que lhe permitia observar toda a movimentação, um par coberto com pele lupina observava. Quando todos mascarados dançavam acompanhados, aquele que tinha a pele lupina mais escura os braços, dando o sinal. Lá embaixo, aqueles em volta da fogueira que se encantaram com os seres mascarados foram conduzidos para o interior da floresta, enquanto o fogo crepitava alto e os tambores ressoavam. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário