sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Terra de mulatos


Na calada da noite, com os cães adormecidos na relva da pradaria, homem branco e mulher negra se amaram, banhados sob a luz do luar. Ela, de lábios carnudos, pele como a sombra dos montes, cabelos secos e volumosos, olhos cujas pálpebras semicerradas escondiam as profundezas do universo infinito, agarrava-se ao seu par, fundindo-se a ele. Ele, cuja pele alva refletia uma luz fantasmagórica, deitava seus lábios finos nos seios pequenos e rijos, as mãos querendo envolver, proteger e guardar eternamente junto a si aquela que agora emaranhava os dedos finos e ágeis nos anéis que eram seus cabelos negros.

Leite e carvão.

O amor era puro desespero por medo da separação. Há meses eles se encontravam sem conseguir dizer palavra, uma vez que não compreendiam a língua um do outro. Olhares e gestos foram seus tradutores. Sabiam da guerra, da inimizade entre as tribos, dos sequestros e dos massacres. Ambos eram guerreiros, cada qual em sua nação. Cresceram na certeza que o outro era o inimigo e ainda assim, ainda assim, não conseguiram conter a perplexidade ao por os olhos no adversário e vislumbrar sua beleza. E numa noite, – ó, a sagrada noite! – quando ambos saíram de perto dos seus para refletir e acalmar os próprios corações, perderam-se em seus caminhos e encontraram-se em seus olhares.

Inimigos não mais.

Porém a guerra continuava.

Não sabiam por que lutavam um com o outro nesta disputa que já durava gerações. Seria por terras? Por ofensas? Por tesouros?... Ninguém tinha certeza. Criados para odiar-se, para se sentirem superiores diante do outro povo, estavam agora ali, prostrados, entregues, nus.

Na calada da noite, sob a luz do luar, o guerreiro da tribo dos brancos desapareceu. A guerreira da tribo dos negros adormeceu. A guerra terminara para eles.  Quando as nuvens cobriram o céu, dois animais correram pela planície em direção ao nascer do sol, em busca de uma nova vida, um novo lar, uma nova terra.


A terra dos mulatos. 

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